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Fortaleza, 6 de abril de 2002
COMENTÁRIO
Para cantar bem alto
Ambos estavam à flor da pele. Fagner e Zeca Baleiro empunharam lindamente violões e fundiram o melhor de seus repertórios no show da última quinta-feira, na Praça Verde do Centro Dragão do Mar. Daqui, seguem em turnê para outras sete capitais brasileiras.
por Ethel de Paula (da Redação)
Quem foi para ver Fagner, digo, aquele Raimundo dos anos 70, se esbaldou, saiu aceso, ''alterado'' da Praça Verde do Centro Dragão do Mar, última quinta-feira. Mas quem foi ter com Zeca Baleiro e um pout-porri de seu repertório só não morreu de sede em frente ao mar porque pôde conferir uma marcante performance do cantor enquanto intérprete e melodista. Era de se esperar que o show fosse mais a cara de um do que do outro. Zeca tem menos idade, menos estrada, menos canções na boca do povo. Fagner, em contrapartida, é dono de uma voz áspera que entrou para ficar no imaginário coletivo, embalando um conjunto precioso de clássicos da MPB. Mas como disse Fausto Nilo, um dos mentores do show e agora parceiro de ambos, aquilo lá não é de nenhum dos três em particular. É outra coisa, nova, cheia de vigor.
Pois os tais clássicos voltaram a ecoar, com novos e belos arranjos para violões e a chorosa e encantadora sanfona de Adelson Viana ao fundo. Perfeita, a fusão de ''À Flor da Pele'', de Zeca, com ''Revelação'', de Clodô e Clésio, tanto arrepiou a moçada pop que se descabelava pelo maranhense de cabelo azul no gargarejo do palco quanto o seleto e também apaixonado público do Raimundo de boina. Era só o começo. Para cantar bem alto, estilo catarse mesmo, vieram na sequência ''Canção Brasileira'' (Sueli Costa/Abel Silva), interpretada com emoção por um Zeca Baleiro fã declarado de Fagner desde a adolescência, ''Natureza Noturna'' (Fagner/Capinam), ''Cebola Cortada'' (Petrúcio Maia/Clodô), ''Cavalo Ferro'' (Fagner/Ricardo Bezerra), ''Serenô na Madrugada'' (tradicional) e por fim até ''Canteiros'' (Cecília Meirelles), entremeado por ''Mamãe Oxum'', de Zeca.
Sintonia e afeto à toda prova. Zeca cantando Fagner (com direito a gogó tremendo), Fagner-com-gogó-tremendo cantando Zeca (''Você só pensa em grana''; ''Babylon''; ''Banguela'') e o derramar mútuo de reverências, sobrando, é claro, para Fausto, que bilava os dois da platéia. Aliás, vale parênteses para dar merecido crédito e destaque às parcerias de um com o outro. ''Dezembros'' (Fagner/Zeca Baleiro/Fausto Nilo) surpreendeu pelo lirismo da letra e melodia palatável, dessas que fazem cócegas no ouvido já à primeira audição. Idem para ''Palavras e Silêncios'' (Zeca Baleiro/Fausto Nilo) e ''A Tua Boca'' (Fagner/Zeca Baleiro/Capinam). São provas irrefutáveis do fértil encontro dos três, que oxalá deve render aí outros biscoitos finos, que a MPB está mesmo precisada. Montados em seus violões-cavalos-ferros, os trovadores também abriram espaço para terceiros: impagável ambos cantando Beatles (''Blackbird'') e ''De Teresina a São Luis'' (João do Vale/Helena Cavalcanti), colado a ''Pau de Arara'' (Venâncio/Corumba).
Para um show iluminado, uma bela luz, capricho de Márcio Barreto. São Pedro ajudou a não chover e Fagner, incrivelmente bem-humorado, agradeceu até a isso, para no fim, agradecer ao Ceará. Um acontecimento esse show. Um chega-de-saudade para os fãs do Raimundo (que depois dessa até pode 'borbulhar' de novo, vá lá, tudo bem, só pelo que já fez está perdoado) e um venha-cá-minha-nêga para quem não conhecia ou se identificava com a veia poética contemporânea de Zeca Baleiro. Os dois têm bala. E pontaria. Fomos acertados.
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Fagner canta Zeca e sucessos da década de 70