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 Extraído do Livro ''O Caminho das Pedras - A Saga do Pessoal do Ceará''
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Show ''Teatro Tereza Raquel'', Rio de Janeiro, 1977

           CRÍTICA DE ANTÔNIO JOSÉ MENDES

                                                                                                                                                                O Globo , 1/5/1977

           ''Um show apresentado no Teatro Teresa Rachel - uma curta temporada de cinco dias - teve um comparecimento possivelmente recorde de público para concertos de música popular deste tipo. O que podia ser facilmente verificado pela extensão das filas, formadas quase exclusivamente de jovens, e pelo tumulto na entrada do teatro onde milhares de pessoas desejavam ver e ouvir Raimundo Fagner.
           Pouco dias antes, no Teatro João Caetano, em um espetáculo realizado para financiamento da revista de cultura 'Anima', a cena foi quase a mesma. Fagner, apresentando-se ao lado de Morais (ex-Novos Baianos), Zé Ramalho da Paraíba, Mirabô e Jackson do Pandeiro, viu o público cantar em coro - sem ser solicitado - a maioria de suas músicas, desde as mais antigas, como Mucuripe, e Manera Fru Fru, até as de seu último disco.
           E o estranho na popularidade do cantor, no sentimento de contemporaneidade e interesse que por ele sente a juventude atual, é que a música de Fagner não é exatamente fácil, não possui nenhuma das características do chamado samba drops ou dos rocks de fácil consumo e assimilação. Ao contrário, quer em apresentações ao vivo, quer em gravações, ele se cerca de músicos de arte bastante complexa - alguns ainda pouco conhecidos - como o guitarrista Robertinho de Recife, outros com seus trabalhos já bem mais divulgados, como Hermeto Paschoal, (que faz o arranjo do próximo disco de Fagner, 'ORÓS'). E as letras das canções, quer sejam do próprio Fagner, ou dos poetas Capinan, Abel Silva e Fausto Nilo, entre outros - embora sejam extremamente simples - não são propriamente o tipo de trabalho mais divulgado pelos meios de comunicação de massa:


                    'Eu tenho o mesmo segredo dos malditos solitários
                    Só a noite é minha amiga a quem friamente confesso
                    A natureza noturna dos meus infernos diários'
                                                 (Natureza Noturna, Fagner-Capinan).

           
Mas estranha ainda é a quase ausência total de Fagner destes meios de divulgação, pelo menos nos mais procurados pelos artistas na busca do sucesso. Suas aparições em televisão são raríssimas,e nenhum dos seus discos chegou a ser expoente nas paradas de sucesso.
            Por que então - e por onde veio - a popularidade de Raimundo Fagner?
            'O que houve foi que, em uma fase em que o amor está morrendo, nós chegamos com poesia, uma poesia simples - diz Fagner - e o interessante é que essa popularidade da nossa música não existe só entre a juventude, ou no meio universitário, mas em qualquer lugar em que exista a nordestinidade. Já notei isso entre operários de construção civil do Rio e São Paulo.'
           O escritor Abel Silva, parceiro de Fagner em três músicas responde de outra forma:
          'Só existe identificação com a música do Fagner é porque a música brasileira, feita por artistas de mais de trinta anos, está muito estabelecida, clássica, serenada, sem capacidade de intervir. Daí porque a carga de estranheza, de verdade, a inquietação do canto de Fagner interessa às pessoas. Ele obriga a repensar o que é um cantor, como João Gilberto e Bethânia conseguiram.'
           Fagner, que agora pensa em experimentar a gravação de um disco nos Estados Unidos, por intermédio de Hermeto Paschoal, lembra que uma maior solidificação de seu trabalho custou a ser conseguida:  'Para ter sucesso é preciso ter uma estabilidade profissional e emocional. É preciso ter passado em primeiro lugar, senão fica meio vazio. E desde os seis anos de idade eu canto em rádio, estou longe nessa transação. Eu digo isso para que me respeitem, pois já andaram dizendo por aí que eu sou resultado de 'astúcia de carreira'. Pergunte a quem disse isso se não conhece Mucuripe, Canteiros, Penas do Tiê. Meu sucesso foi cavado por mim mesmo. Quando saí da Philips, em 1974, fecharam tudo para mim. Pisei na lama braba. Para voltar depois - com o disco 'AVE NOTURNA' - sem apoio de nada, foi muito difícil. Acho que a gente aprende na vida é morrendo, sabe, não é vivendo não.'

                    'Seu canto traz poesia num mundo nada chegado a poetas.
                    E uma carga de inquietude para o mercado musical parado em sambas drops
                    e rocks de fácil consumo. Por isso, tantas pessoas querem ver e ouvir
                    Raimundo Fagner, este cearense que não está "a fim de ficar no buraco.'

           Em muitos poemas cantados por Fagner o assunto é o amor, 'não no sentido romântico', diz ele, 'mas do amor-paixão. Eu sei transar o amor, sei transpô-lo'.
           Esse tema geralmente surge em expressões como 'roubar uma morena', 'teu amor é espinho de mandacaru', 'nós num lençol de cambraia', claramente a amorosidade simples do linguajar nordestino. Essa simplicidade, no entanto, vem revestida de guitarras elétricas, do que existe de mais recente em termos de percussão e efeitos sonoros, e de ritmos musicais acentuadamente urbanos.
           A música do cearense Fagner ainda é nordestina?
           'Minha música é popular, mas tem uma formação erudita, - popular - diz. Tem um caminho mais complexo que não acaba em si mesmo, como o da música popular pura. E é nordestina - e isso está bem claro em 'ORÓS', meu próximo disco - mas do Nordeste pop, de hoje, contemporâneo.'
           O poeta Fausto Nilo, outro parceiro de Fagner, também fala 'da necessidade de trabalhar as raízes regionais, esta matéria-prima, dentro do contemporâneo, fazendo coincidir região e universo culturalmente. E Fagner é um dos artistas que faz isso da maneira mais intuitiva, mais selvagem. Ele assume sua raiz sem ser purista, separatista'.
           Para Abel Silva, 'o Rio de Janeiro ainda tem a possibilidade e a preocupação de definir a cultura do país, e essa definição muitas vezes ainda é folclórica. A simpatia atual parece ser pelos nordestinos. No entanto, não me interessa se o artista é baiano, cearense, etc, o importante é a capacidade de intervenção do trabalho dele, as novas informações que traz. Acho que ninguém cantaria Caetano Veloso melhor que Fagner, e vice-versa'.
           Cercado de escritores, músicos, poetas e cineastas, Fagner já foi visto como uma espécie de porta-voz de um novo movimento, ainda não devidamente identificado e rotulado, a exemplo do Tropicalismo.
           'Eu trabalho com um pessoal ligado a uma retomada do sentimento. Isso inclui tanto o pessoal do Ceará, como Belchior, quanto Robertinho de Recife (vou produzir o primeiro disco dele), Alceu Valença, Cirino, Zé Ramalho da Paraíba, Fausto Nilo, Cacá Diegues, Capinan, Abel Silva, Climério e muitos outros'.
           A idéia de movimento, para Abel Silva 'é viciada; o que existe são trabalhos que se somam. Eu por exemplo, quero ver o filme de Glauber Rocha sobre Di Cavalcanti, ler a revista 'Anima' e ouvir o disco de Fagner'.
Como Fagner se situa em relação à música brasileira atual?
           'O Chico Buarque dá uma referência de realidade muito grande, de cotidiano. É como se fosse um jornalista. O Milton já é uma coisa mais ligada à vanguarda. Quanto aos baianos, eu tenho muita expectativa em Elomar, Gereba e Morais, o pessoal da caatinga'.
           Marcos Roberto, estudante, de 21 anos, assíduo freqüentador de shows de música popular, diz que gosta da música de Fagner 'porque ele fala das coisas que a gente sente mesmo', e dá como exemplo os versos de uma das músicas mais solicitadas pelo público, nas apresentações ao vivo do cantor:

                    'Se o pensamento foge dela
                    O coração a busca, aflito
                    E o corpo todo sai tremendo
                    Massacrado e ferido do conflito'.
                                       (Conflito, Petrúcio Maia e Climério)

           A tristeza, a dor, as frustações do dia-a-dia são uma constante nas músicas que Fagner compõe ou seleciona. No palco, muitas vezes, seu corpo se estica e o rosto amargo grita palavras quase desesperadas.
           'Eu grito porque as palavras pedem' - diz ele.
           A entonação do canto de Fagner, que o caracteriza desde Mucuripe, o primeiro disco que lançou, parte, para Abel Silva, 'de uma garganta rica, onde eu e Capinan gostamos de colocar nossas palavras'.
           Raimundo Fagner, você é triste?
           'Olha, meu temperamento é alegre. Eu não acordo de mau-humor e procuro tirar das pessoas aquilo de legal que elas têm. Mas a roda-viva em que entrei desde que cheguei aqui, as pancadas, as desilusões, e o contato direto com as pessoas relativamente más, que muitas vezes você tem que transar para conseguir as coisas, refletem na gente. E é claro que eu sinto junto com todo mundo o drama das pessoas que ganham salário mínimo, esta insegurança e o desespero das pessoas também se refletem em mim, e eu acabo me sentindo nesse buraco. Mas eu não estou a fim de ficar no buraco, eu estou a fim de levantar as pessoas, com a expectativa de mudança que trago em minha arte.''