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NADA SOU
(Raimundo Fagner - Marcus Francisco)
IV Festival de Música Popular do Ceará, Fortaleza, 1968
Eu não sou eu
Sou enxada no barro do chão, sou sertão.
Eu não sou fé
Sou pecado no corpo fechado de Lampião...
Sou espada,
Sou granada
Sou toada
Na voz do cansado cantador,
No grito do chato agitador
E pensando na morte que eu peço
Eu quero de volta o meu ingresso
E o chefe envolvido num processo...
No apito da fábrica apitando
Na canção que os meninos vão cantando
Sem saber que cantando vão chorando
Estefânia parou de cantar
Ouço o eco do chôro no mar...
No ronco dos carros na sesta
Cabeças de vento em festa
Alguém me pedindo perdão
Por falar e mandar sem razão
Não aceito motivo. Dou não...
Eu não sou eu
Sou panfleto voando e rolando do avião.
Eu não sou fé
Sou pecado de amor, resultando indecisão.
Sou espada
Sou granada,
Sou toada...
Eu não sou eu
Sou um deus a pedir um holocausto de outro deus ( bis)
Deus a deus
Deus a deus
Deus a deus.
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* Foi com a música Nada Sou (com um samba - assim estava classificado, apesar de parecer mais com um xote) que o jovem Raimundo Fagner, então com dezenove anos e ainda estudante secundarista (2ª série colegial Colégio Genny Gomes), ganhou o primeiro lugar no IV Festival de Música do Ceará em dezembro de l968, no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, em clima de extrema agitação, onde não faltaram os ''apitos, tambores, gritos, vaias, pistões, cuícas, aplausos, violão, réco-réco, ansiedade, 'papagaio', precariedade de som e grupos contra grupos''.
Pelo valor histórico que o IV Festival de Música do Ceará possui na formação da carreira do então iniciante Fagner, clique aqui para ler o texto publicado no jornal ''O POVO'', de Fortaleza, em sua edição do dia 2 de dezembro de 1968.
''Eu cismei de fazer música a partir de um anúncio de jornal lá de Fortaleza, falando sobre um festival que ia acontecer no Teatro José de Alencar. E naquela de colégio, de poesia e tal, ainda secundarista, encontrei um parceiro chamado Marcus Francisco. Fizemos uma música chamada Nada Sou e colocamos no IV Festival de Música Popular do Ceará e eu ganhei. Nesse Festival estavam presentes o Belchior, o Luiz Assunção, o Petrúcio Maia, o Ricardo Bezerra, Luís Fiúza e toda uma turma da época. A fase braba da criação. Um ciclo de gente gestando e parindo coisas novas. Então, para mim, o Festival foi uma força muito grande. E já de guitarra em punho, fui muito questionado por ter sido o único a usá-la com o grupo do colégio que ensaiei. Aliás, no colégio, o Salesiano, no bairro da Piedade, tinha um senhor chamado Francisco que fazia guitarras para os conjuntos musicais. E olha que existiam muitos conjuntos. O nosso bairro era mais ou menos a Liverpool de Fortaleza, e eu era líder de um dos que existiam na cidade. O nome do meu conjunto, primeiro foi Os Magnatas, e depois, quando o conjunto deu certo, troquei para Os Rebeldes. A gente colocava um 'coletezinho' e só cantava nos Salesianos, que era uma cadeia de colégios em quase todo o estado do Ceará. E comecei realmente a me apaixonar nessa época, porque a guitarra era feita no próprio colégio. Eu chegava uma hora antes da aula justamente para ir ver as guitarras, para poder sentir qual era a melhor. Era um movimento muito grande que me tirou da bola (eu gostava muito de jogar). Mas na hora do recreio, eu já não ia ao campo, ficava com a turma ouvindo e falando de música.''
(''O Povo'', 26/11/1968)