.
Copyright © 2000/2002 - Pesquisa e Acervo de Fotos: Evangê Costa - Todos os Direitos Reservados. |
A
nova trama musical de Fagner
Correio da Bahia, 21
de Junho de 2001
por
Claúdia Lessa
Várias
histórias, algumas coincidências e diversos timbres musicais foram se interligando
até resultar no novo disco de Raimundo Fagner, o 26º da carreira. Batizado
apenas pelo seu nome, o CD é a síntese da trajetória de um artista intuitivo
e determinado, que perseguiu o sucesso, estabeleceu-se como um dos grandes
nomes da MPB, se acomodou em um determinado momento e agora se sente estimulado
para resgatar o gosto pela arte de compor e cantar; gravar e cair na estrada.
Depois de quatro anos sem lançar um álbum inédito, o cearense volta com um
trabalho original, mesclado de fado, blues, Nordeste e latinidade.
Para
compor o novo repertório, Fagner optou, pela segunda vez, por colocar um anúncio
num jornal do Sul, pedindo aos poetas de todo canto do país que o enviassem
suas criações. Após escutar mais de 700 fitas, selecionou as músicas do carioca
São Beto (Muito Amor, que abre o disco) e do pernambucano
Domervil (Certeza). "Tenho em mãos um material de boa qualidade que daria
para preencher dez livros", disse o artista, em entrevista ao Folha.
Também
remexeu no seu baú e tirou coisas como o blues Olhar Matreiro,
composta com Cazuza na época em que o ex-vocalista do Barão Vermelho morou
no seu prédio, no Leblon. No mais, ligou para os velhos parceiros Abel Silva,
Fausto Nilo e Capinam, combinando algumas dobradinhas. Mas, de todos os episódios
que giram em torno da realização do CD, uma é, para Fagner, a mais sublime:
seu encontro musical com o maranhense Zeca Baleiro. Os dois se bateram na
noite de Fortaleza, e logo tiveram uma forte identificação nordestina.
Influências
de Baleiro - "Foi a melhor coisa que aconteceu, a grande surpresa que me motivou
muito musicalmente. A maioria dos meus parceiros são só poetas e Zeca, além
de ser um grande letrista, é músico, como eu. Pegamos o violão e nos entendemos.
Já estamos na nossa sexta parceria", revelou entusiasmado. Desses frutos,
foram registrados no CD a balada Tempestade e o xote Outra Era,
além de A Tua Boca, um poema de Capinan que Fagner descobriu
há cerca de dez anos e, junto com o autor de Lenha - que
faz participação vocal nessa faixa -, o musicou. Sem dúvida, Zeca Baleiro
imprimiu sangue novo no bem produzido e arranjado trabalho do veterano Fagner.
O
toque de latinidade do disco (direção artística de Liminha e Ronaldo Viana)
está marcado em Puedo, do compositor dominicano Antonio Caban,
o El Topo, o mesmo de Borbulhas de Amor. "Quem me mostrou
essa canção foi o dono da revista Sucesso, Tom Gomes, que sempre me levou
para fazer shows na Espanha", contou, acrescentando que, em setembro, será
lançada em terras hispânicas uma compilação contendo algumas músicas do novo
CD, outras pinçadas do álbum Traduzir-se (1981) e canções
com Ana Belém, Mercedes Souza e Joan Manuel Serrat.
Os
caminhos além-mar têm levado o cantor cearense de voz segura e inconfundível
a recentes visitas a Portugal, onde seu novo trabalho será lançado ainda este
mês. Admirador da cultura lusitana - já musicou os poemas Fanatismo,
Fumo, Tortura e Chama Quente, da
portuguesa Florbela Espanca -, Fagner compôs em parceria com Abel Silva o
belo fado Cor Invisível, no qual se destaca o violão de dez
cordas de João Lyra, substituindo a guitarra portuguesa.
O
Nordeste, que não poderia deixar de estar presente no trabalho de Fagner,
é representado especialmente em dois momentos: no conhecido xote Eu
e Tu (Gereba/Tuzé de Abreu) e o inédito baião Jardim dos
Animais (dele e de Fausto Nilo), em execução nas rádios. Das 13 faixas
(das quais, sete são de sua autoria), duas são regravações: Sem Teto
(Sérgio Castro/Sérgio Natureza) e Feliz, de Gonzaguinha,
para quem o artista dedica o disco. "Essa música, pela qual tenho um carinho
especial, entrou por conta de uma maravilhosa coincidência. Estava no estúdio,
em 29 de abril, último dia de gravação, quando Jota Moraes (diretor musical
do CD) lembrou que fazia dez anos de morte de Gonzaguinha. Me bateu uma coisa
e, na hora, resolvi gravá-la".
Trilhas
do cearense - Com 28 anos de carreira, Fagner se redescobre fascinado por
aquilo que, desde muito cedo, agarrou destemidamente: a música. Ele, que nos
últimos anos andava meio desestimulado a fazer turnês pelo país a cada novo
disco, planeja para o início do segundo semestre (no Rio de Janeiro ou São
Paulo) o lançamento oficial do álbum. Em seguida, deverá rodar o Brasil. Antes,
no começo de agosto, canta em solo carioca com a cantora argentina Mercedes
Sosa.
Até
lá, o artista cumpre uma agenda de shows dos festejos junino, apresentando-se
em várias cidades do Nordeste, dentre as quais três são baianas: nesse sábado
anima o São João de Senhor do Bonfim; domingo, canta em Paulo Afonso; no próximo
dia 1º, em Itiruçu.
Quando a fogueira se apagar, Fagner deverá correr
para a sua querida Orós, onde mantém um vínculo forte com a população e uma
rádio FM. Ainda no Ceará, onde tem passado a maior parte do seu tempo ("Só
vou ao Rio para trabalhar ou jogar bola com Zico"), retoma também as atividades
na Fundação Social Raimundo Fagner - inaugurada há um ano, com sede em Fortaleza
-, através da qual contribui para uma vida mais digna de 120 crianças carentes.
''Tenho
dado o melhor de mim. Este ano estamos aumentando o seu espaço físico e reafirmando
a parceria com a Fundação Banco do Brasil", orgulha-se o dirigente da instituição,
que tem como presidente de honra dona Francisca Cândido Lopes, mãe de Fagner.
Em tempo, aos fãs e afins desavisados, o recém-criado endereço eletrônico
www.raimundofagner.com.br dá acesso ao site oficial do cantor e o www.fagner.com.br
(na internet desde 96), à página dos Amigos de Fagner.
© COPYRIGHT 2001 - Correio da Bahia - Caderno Cultural do Correio da Bahia