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CD faz síntese da carreira
Jornal do Brasil, 21 de Junho de 2001
por Tárik de Souza
Desembarcado no Rio no começo dos 70 num grupo musical heterogêneo denominado Pessoal do Ceará, Raimundo Fagner impôs-se pelo estilo vocal áspero e o repertório que juntava baladas cortantes atravessadas por guitarras, repaginações elétricas dos baiões e xotes nordestinos e um viés ibérico andaluz coerente com sua origem árabe. Mais adiante, ele surfou na onda brega que desguiou de seu rumo a MPB dos anos 80 incorporando outro traço a sua personalidade artística. Todas essas tendências estão coletadas no novo disco do cantor, Fagner (Sony), o vigésimo sexto de uma carreira de 28 anos, o primeiro inédito nos últimos oito, incluído no hiato um inevitável ao vivo que arrebanhou meio milhão de compradores.
O CD reativa seu lado compositor. Ele assina sete das 13 faixas com velhos parceiros como Abel Silva e Fausto Nilo e o mais recente Zeca Baleiro, com quem já fez seis músicas, três delas alistadas no repertório. Até o baú foi revirado para que Fagner repescasse uma antiga associação com o inesgotável Cazuza (Olhar Matreiro) e um poema esquecido de Capinam (A Tua Boca). Para completar o cardápio, encomendou músicas através da imprensa e das 700 fitas que recebeu selecionou apenas uma composição do carioca São Beto (Muito Amor) e outra do pernambucano Domervil (Certeza). Nada que abale a linha evolutiva ou aponte novos rumos no impasse entre o mercado e a arte.
Estranhamentos - Entre os dois, Fagner há tempos optou pelo primeiro, mas tem se (re)aproximado do segundo através de lances estratégicos. Neste disco, o peso arrastado dos baladões, como os mencionados Muito Amor e Certeza, vem adocicado por leves floreios de acordeom. A batida escadaria de acordes que leva ao clímax em O vinho ou Sem teto tem o contraponto de sax ou guitarra. Nesta última, uma das regravações do CD ao lado de outra balada, Feliz, de Gonzaguinha, curiosos estranhamentos agitam a letra de Sérgio Natureza (''tu tens o óleo diesel das carretas/ das pickups, motonetas/ passeando em suas veias'').
Também saltam da lama romântica pegajosa inesperadas imagens de Cazuza em Olhar Matreiro (''olha a lua lá no céu/ magrinha, turca'') e Zeca Baleiro em Tempestade (''eu nem sabia/ desse cinema mudo nos seus olhos''). Da parceria com Zeca sobre o poema de Capinam rola a melhor faixa do disco, o xote A Tua Boca (''se reclama ser tão pouca/ a outra boca que esvazia/ quando beija ou abandona''). As faixas com sotaque da música nordestina como os outros xotes bem azeitados Eu e Tu (Gereba/ Tuzé de Abreu) e Outra Era (com Baleiro), mais o estilizado baião Jardim dos Animais (Fagner/ Fausto Nilo), são as que fazem o disco decolar da mediania melódica que favorece os arroubos do cantor, cultor dos vibratos.
Entram também no recheio uma piscadela ao fado mouro (Cor Invisível, simétrica parceria com Abel Silva) e outra à latinidade edulcorada de Antonio Caban, El Topo, compositor de San Domingos, o mesmo do megasucesso Borbulhas de Amor, que volta em Puedo. Com uma qualidade poética superior à musical, o disco procura contentar todos os segmentos do público conquistado por Fagner. Sem ir muito além das favas contadas e recantadas.
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