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Novos e antigos Canteiros
Depois de oito anos de um fastio voluntário, Raimundo Fagner está lançando um novo disco com músicas inéditas (o vigésimo sexto de sua carreira).
Fortaleza, Ceará - Quarta-feira 20 de junho de 2001
Batizado apenas de ‘‘Fagner’’, o novo trabalho reativa antigas parceiras do cantor, como o sempre interessante Fausto Nilo e os poetas Abel Silva e Capinam; traz à baila uma insuspeita parceria com Cazuza, que resultou na emocionante ‘‘Olhar Matreiro’’; e inaugura a profícua dobradinha com Zeca Baleiro, com quem compôs três faixas do CD. ‘‘Ele (Zeca) foi um grande estímulo para que eu voltasse a gravar composições minhas’’, diz Fagner, que também recebeu uma enxurrada de fitas e poemas de compositores de todo o Brasil, resultado de uma nota publicada na coluna de Ricardo Boechat no jornal O Globo. Como resultado dessa extensa garimpagem por novos nomes, Fagner gravou dois compositores estreantes: o carioca São Beto e o pernambucano Domervil, autores, respectivamente, de ‘‘Muito amor’’, que abre o disco, e de ‘‘Certeza’’, a segunda faixa. Autor de um dos maiores sucessos de sua carreira, Antonio Caban, o El Topo, compositor de San Domingos que entupiu as rádios brasileiras com ‘‘Borbulhas de Amor’’ na interpretação do cantor cearense, está de volta a um disco de Fagner com ‘‘Puedo’’. Em meio às músicas inéditas, apenas duas regravações dão um toque de saudosismo ao CD: ‘‘Feliz’’, de Gonzaguinha; e ‘‘Sem teto’’, de Sérgio Natureza e Sergio Natureza. De seu escritório no Rio de Janeiro, Fagner, que também assina a produção do disco, conversou com a reportagem do caderno 3. Animado com esse ‘‘retorno’’, falou sobre novos parceiros, sobre Cazuza e sobre o seu processo de criação, que segundo ele, está cada vez mais afiado. A fórmula: não se levar muito a sério. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
Diário do Nordeste - Você estava há oito anos sem lançar um disco com músicas inéditas. Por que esse intervalo de tempo entre um disco e outro?
Fagner - Teve um pouco a coisa do CD, da entrada do CD, aí dá vontade de refazer coisas, de fazer projetos. Deu um pouco nisso. Mas também a vontade de ficar aí pelo Ceará, um pouco de fastio de uma maneira geral, misturou um pouco isso. Fiquei dando mais atenção a outras coisas, à minha vida mesmo do que à carreira de uma maneira geral. Mas nunca parei de fazer, vinha guardando, ainda tenho um acervo danado de coisas que fiz, parcerias e tudo, que não vinha gravando, só ficava escutando as dos outros. Fazia pouco, uma ou duas. Era mais uma coisa nesse sentido mesmo.
- E o que te fez decidir lançar esse disco agora?
Fagner - Um pouco saudade de compor, de reativar as parcerias, os amigos, os poetas. O mundo moderno vai afastando as pessoas e eu estava um pouco nessa por conta de outras coisas que estava priorizando. Encontrei o Zeca também, que foi um super estímulo. Nós já estamos na sexta música, a gente não pára. Um parceiro que para mim é uma novidade porque ele toca, canta, compõe. A maioria dos meus parceiros eram muito só poetas, letristas. Então, veio esse estímulo e estou super motivado, o disco está saindo como quero, eu mesmo produzi, coisa que não fazia já há algum tempo.
- Nós poderíamos dizer que esse disco representa o que em relação aos teus trabalhos anteriores?
Fagner - Ele pode significar um pouco a retomada do processo criativo. Eu estou bem motivado nesse sentido. Tem muita gente que só grava as suas músicas, quer dizer, ruim ou mal, só faz isso. Eu não. Pelo fato de gostar de cantar e estar sempre assediado para cantar as músicas dos outros, isso facilitou um pouco o desleixo de não ficar querendo mostrar minhas músicas. A gente tem que abrir, abrir espaço para outras idéias, outras pessoas. Nesse sentido, esse disco retoma o que aconteceu em grande parte dos meus discos, com composições minhas. Isso com certeza é um estímulo presente, momentâneo.
- Uma das parcerias mais emocionantes do disco talvez seja a parceria com o Cazuza. Como surgiu a idéia de gravar ‘‘Olhar Matreiro’’?
Fagner - O primeiro emprego do Cazuza foi ser divulgador do meu disco ‘‘Ave Noturna’’. O pai dele era, e ainda é, o homem do disco no Brasil, o João Araújo. O Cazuza veio de fora e o pai dele botou ele pra trabalhar. Ele que escolheu ‘‘Ave Noturna’’ pra trabalhar. Depois a gente se conheceu e ele me cativou muito contando essas histórias. Ele acabou indo morar no meu prédio quando estava doente. Ia muito lá em casa no final de tarde me pedir para tocar violão e ele ficava cantando. E eu gravei diversas fitas com isso. Tudo livre na hora. Mas achava que não existia nada muito concreto, muito objetivo, eram coisas muito soltas. Recentemente, quando fui mexer no baú por conta desse disco novo, descobri essa fita com essa música e deu pra trabalhar, senti que fechava uma idéia mesmo.
- Você colocou uma nota no jornal O Globo pedindo músicas de novos compositores. Como foi essa experiência?
Fagner - Essa experiência eu estava repetindo porque numa época, nos últimos dias meus aqui na Sony, antiga CBS, botei uma nota também. Foi um disco meu produzido pela Mariozinho Rocha e vieram mais de mil fitas. Foi um negócio danado. Dessa vez eu coloquei também. Foi uma nota no Ricardo Boechat. Só que ele errou a nota, ele disse que eu estava atrás de parceiros e não de compositores. Então, bicho, eu estou com um cadastro de todos os poetas de todas as regiões do Brasil, eu posso fazer um levantamento (risos). Inclusive guardei esse material. Veio muito poema, mas também vieram mais de 400 fitas. Esse São Beto eu gostei da música dele, ele tem outras duas muito boas também. E esse menino, o Domervil, me viu uma vez no interior do Maranhão e entrou numa de fazer música pra mim e fez uma fita com várias músicas, todas muito legais.
- O Chico Buarque disse recentemente que está cada vez mais difícil compor por conta de um maior grau de exigência que ele tem com o trabalho dele. Como isso funciona contigo? Depois de quase trinta anos de carreira, o ato da composição tem se tornado mais difícil?
Fagner- Não, de maneira nenhuma. Ele se torna mais fácil na medida que você quer fazer, porque sempre é querer. E a outra coisa é não se levar muito a sério (risos). O importante é você se deixar fluir naturalmente, dentro daquele espaço que você sempre criou. Eu sei fazer, não estava querendo fazer, agora quero fazer e faço quantas vezes quiser. Essa é que é a intenção. E quanto mais parceiros distintos você tiver, quanto mais difícil for a coisa toda, mais é um desafio para você fazer. O negócio é querer fazer, sentar para fazer e dedicar o tempo para isso. No caso do Chico, o que eu vejo, ele é meu irmão, meu amigo, meu parceiro, ele dispensa o tempo dele para muitas outras coisas e não se dedica exclusivamente à música. Ele tem tantas outras opções, de teatro, de literatura, de intelectual, de homem de esquerda, de cabeça que a patrulha está olhando para ele o tempo inteiro, que ele não está se dando o direito de ser apenas o grande e maravilhoso compositor Chico Buarque.
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