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Fagner muito à vontade num disco
para a felicidade dos fãs mais fiéis
O Globo - Caderno 2, 19 de Junho de 2001
por João Máximo
Ame-o ou esqueça-o. Com Raimundo Fagner não há meio termo: ou são os fãs que se mantém fiéis ao seu estilo único, pedra bruta do agreste, ou são os críticos que não lhe aceitam a voz solta e áspera. Entre gregos e troianos, ou melhor, entre cearenses e baianos, o novo disco de Fagner serve mais ao entusiasmo dos primeiros do que à mau humor dos últimos. Estes, os baianos, não têm como falar mal do repertório, dos arranjos, do capricho da produção e até mesmo da voz de Fagner, segura, contida, sob medida para as canções que, dizem, selecionou entre mais de 700.
Pode não ser o melhor disco de sua carreira, mas os fãs hão de ficar felizes. É um CD superior ao "Fagner ao vivo", que parece ter vendido mais de 500 mil cópias, mas que, do ponto de vista artístico, conta pouco: entrar na onda do "ao vivo", da qual nenhum brasileiro parece ter escapado, pode ser lucrativo, mas não passa mesmo de onda. Os discos de estúdio, por incrível que pareçam, têm mais vida que os gravados no Canecão, no ATL ou no Garden Hall.
Podem se alegrar os fãs porque poucos dos 26 discos de Fagner terão repertório tão adequado. Sinal de que o intérprete abandonou projetos desconfortáveis como aquele, de anos atrás, de gravar standards da MPB, para retomar o caminho do romantismo do começo de carreira. E o compositor - nem sempre tão eficaz quanto o cantor - volta em boa forma, a começar pelas colaborações com o velho parceiro Fausto Nilo: "O Vinho" e "Jardim dos Animais"; ou com outro parceiro antigo, Abel Silva, no fado "Cor Invisível". Ou em "Olhar Matreiro", desarquivada divisão de forças com Cazuza.
Sete das 13 faixas do CD são assinadas por Fagner, três com um parceiro recente: Zeca Baleiro. Na primeira, "A Tua Boca", os dois trabalharam em cima de um poema de Capinam, descoberto pelo cantor em 1990. Zeca participa da faixa ao lado com Fagner. "Tempestade" e "Outra Face" não deixam de confirmar a afinidade e o entendimento entre os dois, mas as canções de outros também ajudam a mantêr o equilíbrio de todo o disco. Se "Feliz", de Gonzaguinha, vale mais como homenagem, e se em alguns momentos "Eu e Tu", de Gereba e Tezé, tem letra demais para caber e tão pouca melodia, "Muito Amor", de São Beto, abre o disco com surpreendente categoria. É por ela que sem tem o tom de todo o trabalho, romântico à maneira de Fagner. "Certeza", do pernambucano Domervil, segue no mesmo ritmo.
''Puedo", do dominicano Antonio Caban, o mesmo de "Borbulhas de amor", dos maiores sucessos de Fagner, marca o reencontro do cantor com o espanhol, língua que o aproxima de suas origens ibéricas e mouras. Está sintonizado com o espírito do disco . O qual, em sua íntegra, é também um reencontro. De Fagner com seu estilo, suas canções. Do artista com uma produção esmerada, dele mesmo. Discos ao vivo, vale repetir, nunca chegam ao nivel dos de estúdio.
Os nove arranjos de J. Moraes são competentes e contribuem para a qualidade do todo. Os de Adelson Viana, nem tanto. Talvez porque as canções pemitam melhor tratamento que os forrós.
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