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JARDIM DA INFÃNCIA
Gravadora: CBS (Sony Music, Nº 230.011)
Lançamento: 1977 (LP/K7)
Em 1977, Raimundo Fagner tinha como prioridade ativar o selo Epic da gravadora CBS e assim revigorar a música no Brasil estava um grande marasmo. Tanto que não se interessou muito com o resultado das vendas do disco ''ORÓS'' (15 mil exemplares contra os 40 mil do elepê ''RAIMUNDO FAGNER''), sua preocupação maior era com o disco de estréia do guitarrista e compositor Robertinho de Recife, ''JARDIM DA INFÂNCIA'' (CBS, No. 230.011), produzido por ele e pelo próprio Robertinho. Segundo lançamento do selo Epic, da CBS, (o primeiro foi ''FLOR DA PAISAGEM'' da cearense Amelinha), Raimundo Fagner caprichou na seleção dos músicos: Geraldo Azevedo, Márcio Montarroyos, Herman Torres, Israel, Sérgio Boré, Ceará, Macarrão, Chico Batera, Sivuca, Itiberê, Paulinho Braga, Jamil Joanes, Wagner Tiso, Airton Barbosa, Luis Alves, Paschoal Meireles, Neusa, Jackinho, Nivaldo Ornellas, Amelinha e Elba Ramalho nos vocais, além é claro, de Robertinho de Recife em todas as guitarras e violas do disco.
Quanto as composições, quase todas são de Robertinho sozinho (Frevo dos Palhaços, Sinais, Ao Romper D'Alva e Chamada ) ou em parceria com Fausto Nilo (Jardim da Infância e Cor de Rosa Dor do Amor), com Airton Barbosa (Idade Perigosa), com Herman Torres (Agrestina) e com Herman Torres e Fausto Nilo (Acalanto Para Um Punhal).
Além da produção, Raimundo Fagner geralmente participava de alguma faixa do disco junto com o ''afilhado''’, como em Chamada, onde faz o vocal duelando com a guitarra portuguesa de Robertinho e em Acalanto Para Um Punhal, onde Robertinho divide os vocais com Amelinha e Fagner.
''Em outubro de 1974 aconteceu em Olinda, no Convento do Carmo, os '7 CANTOS DO NORTE', uma invenção de Tiago Amorim e que reuniu toda uma rapaziada nordestina que já estava na batalha, cada um no seu caminho, mas todos instuitivamente buscando a mesma coisa: mostrar seu trabalho. Alceu, Geraldinho Azevedo, Ave Sangria e Marco Polo, Flaviola, Ricardo Bezerra, Robertinho e eu, fazíamos parte de um acontecimento que insinuo ser um dos mais importantes já acontecidos no Nordeste, e que serviu para dar um certo sentido no que poderia acontecer dali pra frente, levando-se em conta que alguns já haviam conseguido alguma coisa de concreto no meio, e outros iriam procurar mais ou menos o mesmo rumo, havendo assim naquele momento uma grande troca de energia, entre nós, coisa que ainda reflete até os dias de hoje.
Deste encontro das pessoas, das idéias e propostas de trabalho, aconteceu minha aproximação com Robertinho. De cara, era ele quem mais se preocupava com o show, desde os ensaios, a acústica da igreja, e outros detalhes, que já me surpreendiam, pelo amor que ele estava envolvido com a coisa, tudo isso culminando com a sua apresentação que foi das mais belas coisas que eu tinha ouvido até então, com músicos de lá mesmo, como o Icinho, um grande baterista que inda está por lá, e Zé da Flauta, com músicas belíssimas e tudo muito bem preparado e apresentado. Diante da minha surpresa, fiquei feliz em saber dele mesmo, que um dia havia pedido a Naná Vasconcelos para apresentá-lo a mim durante a Phono 73, quando ele havia tocado com Luiz Melodia, e nesta época eu trabalhava com o 'de Vasconcelos', mas todos os planos viraram farrapo, e nosso encontro se deu mesmo foi nos '7 Cantos do Norte'.
Deste dia pra cá muita coisa já rolou, e muito mais, certamente irá rolar. Não seria o caso de saber quem ganhou mais, ou perdeu, o certo é que esta energia cresce cada vez mais no nosso trabalho de composição, instrumental, e acima de tudo no relacionamento que passamos para outras pessoas que estão ao nosso redor, procurando a mesma coisa e criando vários espaços.
Falar de Robertinho, é o mesmo que balançar a poeira de uma mala, que também me carrega pela vida afora. Robertinho de Olinda, dos conventos e mosteiros do Carmo, do frevo da descida da Sé, dos boleros de Dona Cléa (a mãe) aos meregues de Seu Carlinhos (o pai). Robertinho dos Bambinos à Memphis, da harpa de Neusa (a mulher) aos gritos de Bebé (a filha). Roberval sempre quis mais, desde moleque. Uma supercaixa beatlatenta de Maristone para sua manola, sua guitarra transparente dada de presente por um fã americano, ou um cenário, tipo belo, de Tiago.
Ele sempre foi de tocar tudo, o que queria, e muitas vezes até o que não gostava, quando rodava o Nordeste como solista de um conjunto de baile, ainda menino, e que tinha até substituto para seu instrumento na chegada dos home, que não podiam vê-lo de menor fazendo a festa.
Pouca gente, que eu saiba, reúne uma formação tão rica de experiência diária e tão perto da música quanto Roberto. Não uma coisa celebral, estudada e conseqüentemente para dentro, mas uma coisa viva, seguida, sofrida, enfim, uma coisa que faz com que ele pense, faça e fale de coisas que só ele está sabendo, e deixe as pessoas até sem entender direito sua intenção, mas isto tudo está intimamente ligado ao avanço de sua imaginação, aliada a uma prática, uma apropriação e um conhecimento da música e do seu instrumento principalmente, só visto nos grandes mestres.
Penso isto de Robertinho sabendo contudo que ainda é pouca sua idade, e tudo que ele ainda poderá fazer daqui pra frente, para ele e para as outras pessoas que saibam se unir a esta energia, reconhecendo o seu valor e vivendo com a sua música.
Um recado pra ele: Roberval, calma, escuta, pensa, e ataca fundo que a porteira já se abriu. Pode fazer aquela careta linda, e um beijão do Fagnólia.''
Jornal da Música, setembro de 1977