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                 Uma opção pela brasilidade

                                             Lauro Gomes

(Artigo publicado no número 17 da revista VivaMúsica! - junho de 1996)


Uma estranha coincidência une os centenários de morte de Carlos Gomes e de nascimento de Hekel Tavares. No mesmo dia que um morria no Pará, o outro nascia em Alagoas. Em 1996, Carlos Gomes não está sendo reverenciado o suficiente e Hekel está completamente esquecido pelos organizadores de concertos do país. Sua obra é impregnada de intensa brasilidade, embalada pelos rítmos mais populares do nosso folclore.

Filho de mãe pianista e pai flautista, Hekel Tavares nasceu em 16 de setembro de 1896, em Satuba (AL) e foi criado em Maceió, atraído pelas vaquejadas, repentistas, cantadores de desafios, reisados e congadas. Surge o interesse pela harmônica e o cavaquinho e, mais tarde, o aprendizado do piano, ensinado por uma tia paterna. Em 1920, partiu para o Rio de Janeiro, onde estudou harmonia, composição, contraponto, fuga e instrumentação com J. Otaviano e Francisco Braga. Sob a influência nacionalista da Semana de Arte Moderna, construiu uma obra que se situa entre o erudito e o popular.

Em 1926, estreou como profissional. Foi compositor e pianista no Teatro de Brinquedo e participou de revistas populares da Praça Tiradentes. Com o dinheiro ganho, mandou construir no Alto da Gávea, no Rio de Janeiro, um tapujar (residência inspirada nas habitações rústicas de Alagoas) e comprou uma fazenda em Ribeirão Preto, São Paulo.

Preferindo sempre retratar nossos tipos mais humildes, Hekel compôs mais de 150 canções baseadas em elementos regionais, recebendo de Eleazar de Carvalho o título de "Schubert brasileiro". Atingiu o auge de sua carreira com composições como "Funeral de um Rei Nagô", "Banzo" e "Oração do Guerreiro" (letras de Murillo Araújo), interpretadas até por artistas internacionais, como o contralto Marian Anderson. No seu repertório vocal, destacam-se ainda três maracatus ("Evocação", "Oração e Dança" e "Festival", com poesias de Ascenso Ferreira); "Azulão", "Casa de Caboclo", "Na Minha Terra Tem" e "Suçuarana" (letras de Luiz Peixoto); "Lavanderia", "O Carreiro", "O Boiadêro" e "Uma Toada" (poesias de Olegário Mariano); "Guacira", "Leilão", "Favela" e "Moleque Namorador" (letras de Joracy Camargo); "Coco da MInha Terra" (com palavras de Jaime d'Altavitta); e três danças nordestinas (cocos): "Dança de Caboclo", "Humaitá" e "Engenho Novo", arranjos do nosso folclore.

Em 1934, casou-se com Martha Dutra, principal responsável por uma mudança radical na sua carreira. A partir de então, Hekel abandonou gradativamente a canção para se dedicar à música sinfônica. No ano seguinte, compôs a primeira peça para orquestra sinfônica: "André de Leão e o Demônio de Cabelo Encarnado", que focaliza a epopéia do bandeirante André e seus problemas com o Curupira, baseada num poema de Cassiano Ricardo. Antes, já havia musicado duas operetas infantís escritas por sua esposa, "O Sapo Dourado" e "O Gaúcho". Em 1941, a consagrada pianista Antonieta Rudge estreou sua obra mais difundida, o "Concerto para Piano e Orquestra em Formas Brasileiras", onde Hekel usa como movimentos os rítmos do nosso folclore: Modinha, tempo di batuque - Ponteio e Maracatu. Este concerto foi interpretado por artistas renomados, como Guiomar Novaes, Souza Lima e Felícia Blumenthal.

Parte da crítica e dos compositores de sua geração não perdoava o sucesso de um músico com raízes populares. As grandes exceções foram Villa-Lobos, Radamés Gnatalli e Eleazar de Carvalho. Hekel nunca aceitou cargos públicos oferecidos pelo governo. Viveu exclusivamente de sua música, chegando inclusive a vender fazenda e casa para viabilizar a edição de suas obras. De 1949 a 1953, ele percorreu o Brasil recolhendo material folclórico para composições.

Hekel Tavares recebeu a "Medalha Roquette Pinto", a "Comenda Cruzada Tradicionalista Brasileira" e o Prêmio Nacional do Disco (1967). Em 1968, findou sua criação musical com a "Rapsódia para Violoncelo e Orquestra", deixando por terminar o drama folclórico "Palmares", com palavras de Edgard da Rocha Miranda, a "Rapsódia Nordestina" e a "Fantasia Brasileira para Piano e Orquestra". O compositor faleceu no Rio de Janeiro, em 8 de agosto de 1969.

                                                     MÚSICA OBJETIVA - número 2 - setembro 1996
         

PERFIL DE HEKEL TAVARES

perfil de Hekel Tavares
       Hekel Tavares


. RICARDO BOECHAT