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Copyright © 2000/2002 - Pesquisa, Texto e Acervo de Fotos: Evangê Costa - Todos os Direitos Reservados. Extraído do Livro ''O Caminho das Pedras - A Saga do Pessoal do Ceará'' |
IV FESTIVAL DE MÚSICA POPULAR DO CEARÁ, 1968
A luta de Geraldo Vandré em seguir caminhando e cantando, toda a articulação do movimento tropicalista e os protestos proferidos por Caetano Veloso no encerramento do Festival Internacional da Canção em setembro de 1968, ficaram abafados e esquecidos na tarde de 25 de novembro de 1968, no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, com a vibração das torcidas organizadas na abertura das duas urnas que continham os votos populares dados as concorrentes do IV Festival de Música Popular do Ceará, classificando Canto Primeiro, de Lauro Benevides e Eusélio Oliveira, com 308 votos; Nada Sou, de Raimundo Fagner e Marcus Francisco, com 244 votos; Conclamação, de Expedito Parente e Roberto Ponte, com 221; e Espacial, de Antônio Carlos Belchior, com 169 votos, dentre outras, para a grande final no dia 1 de dezembro. Estas músicas ficaram entre as l0 finalistas selecionadas, das 20 escolhidas anteriormente, de um total de mais de 200 concorrentes, entre as quais, A Canção da Verdade, de Heitor Catunda e Aleardo Freitas, Cai o Pano, de Jorge Mello, Já Não Canto ao Vento, de Pretextato Melo; O Samba, de Luiz Assunção e Diálogo do Amor Cantante, de Marcus Vale.
Naquela tarde de novembro de 1968, mal foram abertas as urnas, começaram as declarações contra a escolha das finalistas. Prova que não foi somente Caetano Veloso que causou polêmica, naquele final de década. Jorge Mello, um piauiense radicado no Ceará e que havia apresentado sua composição Cai o Pano, não obtendo a classificação, atacou o júri do evento: ''O Festival, da maneira que foi feito, desde cedo que eu tinha a idéia de que seria algo utópico, uma vez que em nenhuma eleição democrática até hoje, houve 100% honestidade. 90% dos presentes a semifinal no Teatro José de Alencar, sem ouvirem o que estava sendo apresentado, já tinham em mente a música, ou melhor, o compositor de sua preferência. Nunca é fácil se tirar o bom do melhor. Apesar de estar concorde com o resultado, já que as dez músicas são razoavelmente boas, afirmo que esta maneira escolhida, não pode ser a coroada.'' Outro descontente, o compositor Rogério Frankin não aceitou de maneira alguma o resultado: ''Só quero externar meus pêsames à instituição do Festival no Brasil; seus caminhos já estão prostituídos: a elaboração de músicas chamadas 'para Festival', um público ineducado e inadulto a aplaudir e vaiar sem critérios tudo de acordo com a espontaneidade dos meios artísticos brasileiros. Incentivar a arte não é isso; o que houve foi uma gozação aos artistas cearenses. O público votou. Mas, como? Foram os amigos dos compositores que votaram em peso e fora da medida. O que todos os componentes devem fazer é continuar a protestar contra os acontecimentos estúpidos que têm cercado o IV FMPC .''
O protesto existe. As vaias, também. Assim como Caetano Veloso escandalizou com suas idéias de modernidade nas letras e nos arranjos de suas músicas, muitos compositores cearenses quase no final dos anos sessenta ainda estavam apegados às idéias da já caduca bossa nova. Poucos se aventuraram ao ''veneno do novo'', exposto por Caetano, Gil e toda a trupe tropicalista, ainda mais quando suas canções foram desclassificadas justamente, não por estarem, de um certo modo, bem elaboradas, mas porque faltava-lhes ''o espírito do novo'', já idealizado por Fausto Nilo, Rodger Rogério, Cláudio Pereira e Augusto Pontes no início da década de sessenta.
Segundo o jornalista do jornal ''O Povo'', Gervásio de Paula ''o IV Festival de Música Popular do Ceará, iniciou errado, como bem disse um artista experiente da cidade ao localizarem o piano em uma das laterais do palco, enquanto os intérpretes, quase sempre situados entre dois microfones, se preocupavam com o que tivesse melhor som em fase da balbúrdia indígena provocada pelas torcidas organizadas e, ao mesmo tempo, com a colocação do piano e outros instrumentos musicais que se desajeitavam pelo resto do palco.
As torcidas organizadas - é bom que se repita - originaram a mais alta confusão, quando os seus candidatos iam cantar impossibilitando, assim, que os mais interessados em ouvir, para depois manifestar com honestidade o seu parecer, acompanhassem qualquer coisa do que estava sendo posto em julgamento.
O único ponto elogiável do espetáculo foi sem qualquer dúvida a escolha do elemento humano feminino. Foi, em verdade um autêntico desfile de moças bonitas, que mereceriam inclusive, os prêmios, em relação a feitura das letras mal ouvidas. A Secretaria de Cultura deveria, através de seus representantes ter-se inspirado no IV Festival para promover um concurso, reunindo as mais lindas cantoras de música popular cearense, em desfile no Parque da Liberdade. Se é que tal inspiração já não entrou em ebulição.
Música de verdade não se ouviu, porém somente zoada, como diria um 'coleguinha' em uma de suas diversas madrugadas, depois de ouvir um conjunto de músicos cansados e com sede, voltando de suas festas ganha-pão nas 'boates' da cidade.
As torcidas organizadas, mal os intérpretes iniciavam os seus trabalhos, começavam a algazarra, sem deixar qualquer pessoa ouvir as letras e músicas cantadas, prejudicando além de regular número de silenciosos, os cantores, como aconteceu por duas vezes de uma garota ser obrigada a repetir o que havia iniciado a cantar simplesmente, porque o som do microfone do qual ela iniciara a interpretar estava com baixo som em relação aos gritos da torcida.
Encerrada a gritaria com o anúncio do encerramento da apresentação dos candidatos porquanto infelizmente nada foi ouvido além de gritos, algumas igrejinhas se foram formando no 'hall' do Teatro José de Alencar para colecionar os cupons de votação, enquanto outros curiosos indagavam se entre si onde se poderia adquirir chapas e onde se deveria votar. As urnas estavam expostas, mas os cupons que melhor reunidos iriam aproximar mais de 'um milhão de cruzeiros novos' do vitorioso, eram limitados e muita gente saiu aborrecida por não haver recebido o seu pequeno papel para poder protestar contra a desorganização do tal Festival, escrevendo no verso como faz um bom eleitor.
Em face de tanta desorganização, o público ficou sem saber mesmo o que fazer. Se pelo menos os organizadores do Festival tivessem distribuído em boletins as letras das canções a serem julgadas, como fez um dos candidatos, talvez assim houvesse facilitado mais aos presentes no acompanhamento das interpretações, porquanto quem se prendesse a letra não teria tempo de balburdiar, mesmo sendo, antecipadamente convocado a isso. Promoção de festivais é coisa superada, notodamente esses bem desorganizados. Fazer Festival afastando o jogo de tendências é fenômeno, não?''
(O Povo, 30/11/1968)