.
Copyright © 2000/2002 - Pesquisa, Texto e Acervo de Fotos: Evangê Costa - Todos os Direitos Reservados. Extraído do Livro ''O Caminho das Pedras - A Saga do Pessoal do Ceará'' |
FESTIVAL DE MÚSICA AQUI NO CANTO, 1968
Mesmo tendo vencido o IV Festival de Música Popular do Ceará com Nada Sou, Raimundo Fagner continuou a ser rejeitado no meio dos intelectuais preocupados com discussões políticas e definições de arte e cultura que aconteciam geralmente no Bar do Anísio, em Fortaleza. Afinal, ele era um secundarista e sua preocupação maior era conseguir dinheiro para comprar os discos de Altemar Dutra, Roberto Carlos e de Luiz Gonzaga.
''Quase tudo no movimento cultural, com repercussões até hoje, nasceu lá, no Bar do Anísio, na Beira-Mar. Nem o Estoril tem essa memória que querem colocar, porque é posterior'' - recorda o compositor Augusto Pontes. ''O pessoal frequentador, apesar de identificado com a esquerda, era muito ligado nas artes. Às noites estávamos todos lá: Paulo Limaverde, Cláudio Pereira, Flávio Torres, Rodger, Ednardo, o Fagner era rapazola, menor de idade, e chegava numa rural Willys, mas ia embora cedo porque não podia varar a madrugada que o Juizado não permitiria. Ele não era discriminado, apenas não tinha a nossa idade. O que não surgiu nas casas da Teti, do Rodger, do Evangelista, é porque foi produzido no Anísio, de onde descíamos para demonstrar na praia o fruto de nossa criatividade.''
E a cidade de Fortaleza parecia ter assimilado a doença do Sul do país. Mal havia terminado o IV Festival de Música, um novo já estava prestes a iniciar. Em seis de dezembro de 1968 estavam sendo realizadas as apresentações das músicas a serem classificadas para a final do I Festival de Música Popular Aqui, uma promoção da Rádio Assunção Cearense, Diretório Acadêmico Escola de Arquitetura, Diretório Elvira Pinho, Arquidiocese de Fortaleza e Orgacine (um pequeno estúdio de gravação) e organização de Aderbal Freire Júnior. Muitos participantes do festival anterior estavam presentes a este novo evento, de onde seriam tiradas as 12 composições que fariam parte de um disco a ser lançado pela Orgacine: Luzia do Algodão, de Fagner e Marcus Francisco; Andanças, de Piti; Esquina Predileta, de Rodger Rogério e Ray Miranda; Dança do Torém, de Lauro Benevides e Iracema Melo; Encabulado, de Braguinha e Dedé; Folha Caída, de Iris Bustamonte, O Não Desistir da Esperança, de Izaíra Silvino; Vou Lutar, de José Joaquim Oliveira; Sinos da Capela, de Alberto Machado Dias; Samba do Não Dá, de José Wilson Rocha; Eterna Vidraça, de Jorge Mello; Passarada, de Edson Távora e Se Na Praça, de Sérgio Pinheiro.
No final de 1968 o clima do país era insuportável. Eram proibidas todas as manifestações, reuniões e aglomerações. Na sexta-feira, 13 de dezembro, o presidente Arthur da Costa e Silva baixara ato institucional, revogando artigos de uma Constituição adotada há apenas 22 meses, decretando o recesso do Congresso nacional e de assembléias legislativas, promovendo cassações, suspendendo direitos políticos, confiscando bens e a decretação de estado de sítio, podendo intervir em qualquer Estado ou Município da federação.
Era permitido proibir. Tudo. A canção de Caetano não tinha a força metálica dos canhões. As flores jamais os venceriam. Os estudantes, nas ruas, em eterna batalha na procura incessante de uma maior liberdade política, social e cultural, não necessariamente nessa ordem. E foi neste clima de ''país tropical, abençoado por Deus'', que a turma do movimento musical cearense prosseguia na luta por um lugar ao sol no I Festival de Música Popular Aqui. O clima estava tão pesado que não aconteceu a classificação final, sendo que os pontos obtidos nas eliminatórias, garantiram, em menos de vinte dias, a segunda vitória do cantor Raimundo Fagner com Luzia do Algodão, novamente em parceria com Marcus Francisco.
''Depois do IV Festival de Música teve um outro chamado I Festival de Música Popular Aqui, onde resultou um disco do qual eu não cantei porque não deixaram. Marcaram a gravação da minha música que tinha tirado o primeiro lugar para uma quarta-feira que nunca aconteceu. E é engraçado essa história porque o Piti - um compositor que veio no movimento baiano junto com Caetano e Gil, estava estourado no Nordeste, todo mundo o conhecia - foi convidado para participar do festival e ele disse que só iria se ganhasse o evento. Realmente ele tinha três músicas lindas, mas nêgo já sabia que ele não ganharia nada. Na semifinal a minha música ficou com a melhor nota e então acabou com o festival que que não teve a final e resolveram fazer da semifinal o registro de um disco onde eu fui limado da gravação. Resultado: tô cantando até hoje porque se eu tivesse cantado aquela vez, talvez eu não quisesse mais.''
Segundo Aderbal Freire Jr., em depoimento exclusivo a mim, ''o festival aconteceu numa época complicada. Em 1968 eu era o diretor artístico da Rádio Assunção, e tinha ido para lá pouco tempo antes com a missão de melhorar a audiência da emissora. Era a época do Tropicalismo e a gente tentou brincar de fazer uma 'rádio tropicalista'. Lembro que tínhamos uma programação absolutamente enlouquecida. Tínhamos um programa que se chamava 'Yes, nós temos mau gosto', que tocava músicas que hoje chamaríamos de brega, mas naquele tempo não tínhamos esse termo. Então fizemos este Festival porque era o tempo em que estavam nascendo os compositores, o movimento de música no Ceará, certamente inspirados pelos grandes festivais nacionais da canção no Rio de janeiro. Os baianos foram outra fonte de inspiração. Então aqui estava surgindo o Fagner, o Ricardo Bezerra e muitos outros. E estava aqui por acaso, um dos integrantes do primeiro momento do movimento da Bahia, que era o Piti, e que havia surgido com Tom Zé, Caetano, Gil. De modo que, com o Piti, organizamos esse Festival e que se chamava Aqui no Canto, justamente porque a freqüência da rádio era a última do dial, tanto que bolamos um slogan para divulgação que era 'venha cá no canto' e o Festival se chamou Festival de Música Popular Aqui no Canto.
Este Festival não pretendia ter a final - final no sentido de premiar as melhores músicas. Era um tempo difícil, de censura, de proibições. Mas nesse caso particular, quando fizemos o Festival, ele tinha algumas particularidades. Eu lembro que, sentado à máquina de escrever, ali na Rádio Assunção, escrevendo o regulamento, ter escrito coisas que me divertiam. Primeiro, 'as músicas precisam ser inéditas'. E eu dizia assim: 'Gente o que é ser inédito no Ceará, onde não existe gravadora e onde tudo é inédito?'. Esse era um item do regulamento e eu completei: 'parágrafo primeiro: Entende-se por inédito o que eu entender'. E dizia também: 'Este Festival não vai premiar, primeiro, segundo e terceiro. O que este Festival quer é fazer um disco como resultado final.' Ora, disco era uma coisa quase inexistente na terra. Praticamente não existiam discos por aqui. Eram raríssimos. Então, com essa geração que nunca tinha feito um disco, fiz um. Escolhemos doze músicas, não importando classificação (mas todo mundo é muito interessado em competir, em tentar achar os primeiros lugares e nós queríamos encontrar os doze) e o disco saiu.
Eu sei que o Fagner anda dizendo, ele até disse uma vez na minha frente, que eu achei que ele não cantava bem e que não devia gravar a música dele, Luzia do Algodão. É certamente uma brincadeira do Fagner, porque ele sabe que não é assim, e achando assim, o tempo vai construindo estórias mais divertidas do que elas foram. E com essa particularmente, porque a história real é muito mais divertida. O Fagner não gravou Luzia do Algodão porque também não a apresentou no Festival. Quem achava que o Fagner não cantava bem era o próprio Fagner. Talvez a coisa venha, e esse que é o sabor dessa história, melhor do que o sabor da que ele inventou, é que quem cantou a música dele foi a Ana Tércia que ele próprio levou para apresentá-la e defendê-la no Festival. O Fagner ficou o tempo todo ao lado dela. E quando foi para gravar o disco, o noivo da Ana Tércia não deixou-a gravar e o Fagner tratou de arranjar uma substituta. Tenho a impressão de ter dito: 'Canta você, Fagner'. Ele retrucou: 'Não'. Ele não quis gravar e, talvez com medo trouxe a Izaíra que acabou registrando a música. O que houve foi que existiram duas cantoras: uma que apresentou e outra que gravou a canção, e o Fagner que em nenhum dos dois momentos quis participar e gravar sua música.''
Para o compositor Ricardo Bezerra ''o Aderbal Júnior teve o peito e a coragem de gravar um disco independente na época era uma coisa do outro mundo. Esse disco foi feito no estúdio da Orgacine, uma gravadora de 'spots' precariamente estruturada: numa sala onde caberia no máximo cinco a seis pessoas tinham um piano, uma bateria, um contrabaixo... a maior loucura. Acho que tudo foi feito em dois canais, mas foi fundamental, é um disco histórico.''
''O Festival da Rádio Assunção - lembra o compositor Rodger Rogério - foi censurado e não foi possível se chegar a uma classificação final. A polícia não deixou que fosse realizado o último show e a saída encontrada foi fazer um disco que reunisse os mais expressivos intérpretes do Festival ao invés de se premiar apenas os três primeiros lugares.''
O elepê ''I FESTIVAL DE MÚSICA POPULAR AQUI'' foi lançado com as doze músicas escolhidas (já que segundo o Aderbal Freire não haveria classificação, foi obra de gênio conseguir tirar de cento e cinqüenta inscritas, depois, quarenta e oito julgadas, as doze ''finalistas''), incluindo: Fox-lore (Rodger Rogério/Dedé) com Rodger Rogério; Vejo (Piti) com Lourdinha Vasconcelos; Rosa (Wilson Cirino) com Cirino; Esquina Predileta (Rodger Rogério/Ray Miranda) com Ray Miranda; A História do Rapaz que Olhou para os Balões e Perdeu as Meninas de Vista (Luís Fiúza/Ricardo Bezerra) com Beatriz Fiúza; Encabulado (Braguinha/Dedé) com Ray Miranda; Unilateral (Ricardo Bezerra/Brandão) com Beatriz Fiúza; Canção (Maninho/Yêda Estergilda) com Lúcia Arruda; A Dança do Torém (Lauro Benevides/Iracema Melo) com Lauro Benevides e Os Vagalumes; O Santo (Sérgio Pinheiro) com Sérgio Pinheiro; Esquecimento (Luís Fiúza/Ricardo Bezerra) com Lúcia Arruda; e Luzia do Algodão (Raimundo Fagner/Marcus Francisco) com Izaíra Silvino, a responsável pelo primeiro registro de uma música de Raimundo Fagner em disco.