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 Extraído do Livro ''O Caminho das Pedras - A Saga do Pessoal do Ceará''
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SORRISO NOVO
Gravadora: CBS (Sony Music)
Lançamento: 1982 (LP/K7)
(não foi lançado em CD)

 

Qualquer Música (poema de Fernando Pessoa musicado por Fagner)
Tudo é Verdade(de Petrúcio Maia e Abel Silva)
Fumo (poema de Florbela Espanca musicado por Raimundo Fagner)
Tortura (poema de Florbela Espanca musicado por Raimundo Fagner)
Sorriso Novo (de Raimundo Fagner e Brandão)
Vapor do Luna (de Bigodeiro e Raimundo Fagner)
Orós II (de João do Vale e Oséas Lopes)
Homem Feliz (de João Donato e Abel Silva)
Sambalatina (Merengue) (de Raimundo Fagner)
Pensamento (de Raimundo Fagner)
     Estamos em 1982. O Brasil se prepara para mais uma Copa do Mundo. O trio elétrico começa a invadir os carnavais. E.T phone home. Ok, você venceu.
     
Logo no início do ano de 1982 perdemos a maior cantora brasileira. Às 11h45min de uma terça-feira, 19 de janeiro, aos 36 anos morreu em São Paulo, vítima de uma mistura fatal de cocaína e bebidas, Elis Regina de Carvalho Costa, nascida em Porto Alegre, no dia 17 de março de 1945.
      No dia sete de fevereiro de 1982, Raimundo Fagner foi um dos convidados do show ‘‘CANTA BRASIL’’, em homenagem a Elis Regina no Estádio do Morumbi, em São Paulo, com participação de Simone, Paulinho da Viola, Toquinho, Nara Leão, João Bosco, Clara Nunes, Chico Buarque, Baby Consuelo, Elba Ramalho, Gonzaguinha, Pepeu Gomes e Djavan.

                                                 *****
      Em 1982 muitos cantores gravaram canções de Raimundo Fagner. Cauby Peixoto em seu disco ‘‘ESTRELAS SOLITÁRIAS’’ (Som Livre, No. 2403.6251) registrou Tortura, um poema de Florbela Espanca musicado por Raimundo Fagner. Já a cantora Joana preferiu fazer uma releitura de Penas do Tiê no álbum ‘‘VIDAMOR’’ (RCA, No. 103.0543). O compositor mineiro Paulinho Pedra Azul regravou no elepê ‘‘JARDIM DA FANTASIA’’ (RCA, No. 103.0537) Pobre Bichinho, uma canção somente gravada por Amelinha, ainda em 77, e o pianista e arranjador Luís Carlos Vinhas recriou Laranja da China, de Raimundo Fagner e Fausto Nilo no disco ‘‘BAILA COM VINHAS’’ (Polyfar, 1982, No. 2494628) canção somente gravada por Nara Leão.
     
Música inédita de Raimundo Fagner somente aconteceu com o lançamento do álbum da cantora espanhola Ana Belen. O disco lançado pela CBS traz o melhor da música brasileira em gravações especiais para o mercado latino e para a Europa onde se concentra o grande público da cantora. A gravadora lançou duas versões do disco - um álbum simples e um duplo em edição promocional e limitada (1982, No. 144.748 e No. 550005/6). Raimundo Fagner participa dos dois álbuns cantando a mesma música em espanhol e português: Impossível e Imposible, (música de Raimundo Fagner em mais um poema de Florbela Espanca.
     
Em abril de 1982, Raimundo Fagner partiu em direção a cidade de Nova Iorque. Iria realizar um sonho acalentado desde 1976: gravar um disco nos Estados Unidos. E foi um grande feito. Raimundo Fagner foi primeiro artista brasileiro a gravar um disco em 48 canais e no famoso The Hit Factory Studios, de Nova Iorque. Sim, o mesmo estúdio onde John Lennon gravou seu último disco, o ‘‘DOUBLE FANTASY’’. Mas na elaboração do disco ainda foram necessários mais dois estúdios, o também famoso Record Plant Studio, de Los Angeles - onde foram feitas as mixagens - e o Studio Eurosonic, de Trianera, onde foi gravada a participação do guitarrista Paco de Lucia.
     
Mas Fagner fez questão de levar e de ser acompanhado músicos brasileiros, mesmo que alguns já fossem radicados por lá como o Airto Moreira, a cantora Flora Purim, o Naná Vasconcelos, o baterista Allan Schwartzberge e o percussionista Laudir de Oliveira, este último do grupo Chicago, além, é claro, de Manassés, na viola, cavaquinho e guitarra, o Jamil Joanes, no contrabaixo e o Lincoln olivetti, nos teclados.
     
Em maio, ainda nos Estados Unidos, enquanto aguardava a finalização das mixagens, Raimundo Fagner realizou um grande show para mais de duas mil pessoas no Veteran’s Auditorium, ao lado de músicos brasileiros radicados nos Estados Unidos como Oscar Castro Neves (piano), Laudir de Oliveira (percussão), Tião Neto (baixo), Raul de Sousa (trombone), Moacir Santos (sax) e a participação do cearense Manassés.
     
D
e volta ao Brasil, em agosto de 1982, Raimundo Fagner chegou com um ótimo astral e muito feliz. As rádios executavam, e muito bem, ‘‘Qualquer Música’’, faixa escolhida para puxar o novo trabalho. Mas a felicidade estava em saber que a gravadora CBS já havia comercializado por antecedência 400 mil exemplares do último disco, cujo título é o seu próprio nome, com previsão de lançamento para o final de setembro e a garantia de mais um Disco de Platina.
      Enquanto aguardava as finalizações do novo álbum, Raimundo Fagner continuou a trabalhar na produção de elepês em outras gravadoras. Para a RCA, principalmente, no disco ‘‘JOANA FLOR DAS ALAGOAS’’ (1982, No. 103.0518), da cantora baiana Telma Soares (também conhecida por Cordélia Leão), ele fez alguns arranjos e as direções musical e de estúdio, além de participar como convidado nas faixas Revertério, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, A Quem Interessar Possa (Mirabô, J. Newmanne e Bernardo da Silva) e Algodão, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. No álbum ainda estão a inédita Um Amor Que é Só Meu (uma parceria de Raimundo Fagner com Vinícius de Moraes) e a regravação de Mucuripe (Fagner e Belchior).
      Foi de Raimundo Fagner também a iniciativa e a produção de relançamento do álbum ‘‘TELMA SOARES INTERPRETA NELSON CAVAQUINHO’’ (CBS, 1979, No. 144.366) quando ainda era o mandachuva do selo Epic.
      Saíram muitos discos durante o ano de 1982 com músicas de Raimundo Fagner ou com a participação dele. A Polygram incluiu no oitavo disco brasileiro da argentina Mercedes Sosa - ‘‘GENTE HUMILDE’’ (No. 6448234) a música Años, de Pablo Milanés, usando o mesmo fonograma utilizado no álbum ‘‘TRADUZIR-SE’’, de Raimundo Fagner. A gravadora RCA lançou o elepê ‘‘NINHO DE COBRAS’’ (No. 103.0555) coletânea com grandes nomes da MPB entre os quais Miúcha, João Bosco, Nana Caymmi, Bethânia, Gal Costa, Beto Guedes, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, e incluindo Raimundo Fagner e Telma com a música Revertério. Já a gravadora Continental, dona dos primeiros fonogramas de Ney Matogrosso (No. 101.404.255) lançou uma coletânea totalmente incoerente onde o destaque principal (estava escrito até na capa) era Raimundo Fagner com a inclusão das músicas Postal de Amor e Ponta do Lápis, ambas do compacto lançado em 1975, e portanto raridade no mercado.
      Outra raridade também relançada foi a primeira gravação de Raimundo Fagner para a música Mucuripe realizada para o Pasquim no início de 72. O elepê intitulado de ‘‘MPB INDEPENDENTE’’ (Pasquim, No. 10.001) e produzido por Belchior traz todas as músicas que fizeram parte do acervo dos Discos de Bolso do Pasquim lançados nos anos setenta.
      Já a cantora cearense Amelinha dividiu com Raimundo Fagner no disco ‘‘MULHER NOVA, BONITA E CARINHOSA...’’ (CBS, 1982, No. 138.243) os versos de Frieza, mais um poema de Florbela Espanca musicado por Raimundo Fagner.
      O resultado das investidas de Raimundo Fagner na gravação de um disco no exterior foram conferidas com o lançamento do novo álbum em 1982. Muitos críticos não gostaram. Acharam que a superprodução abafou a intuição e a ousadia de Raimundo Fagner. Realmente. Gravado em 48 canais, nos melhores estúdios dos Estados Unidos, o elepê de Raimundo Fagner, que muitos começaram a rotular de ‘‘SORRISO NOVO’’ ou ‘‘QUALQUER MÚSICA’’ (CBS, No. 138250), pecou pela excessiva qualidade. Não é um disco simples de ser ouvido. Raimundo Fagner deixou de lado a simplicidade dos discos anteriores. O certo é que Raimundo Fagner não se prende em modismos e a cada disco procura não se repetir. Às vezes acerta, às vezes erra. Apoiado pela gravadora, Raimundo Fagner teve o direito aos melhores músicos estrangeiros e brasileiros. Estão com ele David Samborn, Michael Brecker, Paco de Lucia, Tânia Maria, Lincoln Olivetti, Flora Purim, Jamil Joanes, Manassés, Alan Schwartsberg, Laudir de Oliveira, Naná Vasconcelos, Airto Moreira, Sérgio Dias, Jon Faddis, Lewis Soloff, Tom Malone, Alan Rubin, George Young, Hamiet Bluiett, Portinho. Os arranjos são de Raimundo Fagner e Lincoln Olivetti.
      A maioria das músicas do disco é de autoria de Raimundo Fagner ou em parcerias. Estão no elepê Qualquer Música, um poema de Fernando Pessoa musicado pelo músico cearense Ferreirinha; Tudo é Verdade, de Petrúcio Maia e Abel Silva; Fumo e Tortura, dois poemas de Florbela Espanca musicados por Raimundo Fagner; Sorriso Novo, de Raimundo Fagner e Brandão; Vapor do Luna, de Bigodeiro e Raimundo Fagner; Orós II, de João do Vale e Oséas Lopes; Homem Feliz, de João Donato e Abel Silva; Sambalatina (Merengue) e Pensamento, ambas de Raimundo Fagner.

      A gravadora CBS distribuiu para a imprensa um release sobre o disco de Raimundo Fagner:
      ''FAGNER - emoção que extrapola o sentido original da palavra. Emoção é andar, sentir-se amado. Emoção é sair em busca de novas emoções. Emoção é a festa dos amigos de estrada. Uma festa que não tem fim enquanto não faltarem amigos e existir estrada. A emoção de Fagner é um sentimento peculiar de sua maneira de transmitir às pessoas o seu universo. E poucos, como ele, a sabem comunicar com tanta garra e tanta certeza.
      Apesar de sua vida agitada, Fagner foi sempre de extrema paciência com os objetivos de sua carreira. Seu trabalho, iniciado há dez anos atrás, não chegou de repente ao topo das paradas e isso é absolutamente importante para todos os que querem inscrever, com seu talento, um nome que se firme na história da música. E foi exatamente a partir desse tipo de paciência e perseverança que Fagner chegou ao estágio anual, quando, antes mesmo de seu disco ser lançado, mais de 400 mil cópias já tinham sido vendidas. Poucos são os artistas que conseguem ganhar um Disco de Platina no dia do lançamento de um novo álbum.
      De acordo com os amigos mais próximos, Fagner é uma pessoa imprevisível. Ele tanto compõe, grava, faz shows que levam as platéias ao delírio, como está preocupado em lançar novos valores ou levar ao público os grandes e desconhecidos mestres da poesia e do repente nordestinos. A verdade é que Fagner nunca quer se repetir em seus trabalhos. Ele procura sempre contrariar a lógica geral e fazer o público conhecer e descobrir coisas novas. Como aconteceu ano passado com o álbum ‘TRADUZIR-SE’ - gravado na Espanha com os maiores nomes da música ibero-americana -, um trabalho absolutamente inédito dentro da música brasileira, que até o mês de agosto já tinha ultrapassado as 400 mil cópias vendidas apenas no Brasil. Para realizar seu novo álbum, Fagner foi aos Estados Unidos e juntou suas forças e o virtuosismo de seus músicos (Lincoln Olivetti, Manassés e Jamil Joanes) ao talento de excepcionais músicos americanos como David Samborn, Michael Brecker, Jon Faddis, Tom Malone e Alan Rubin, dentre outros.E ainda pôde contar com a colaboração de amigos como Airto Moreira, Flora Purim, Laudir de Oliveira, Naná Vasconcelos e Tânia Maria, brasileiros radicados no exterior, e de Paco de Lucia, o maior guitarrista flamenco do mundo.
      Outra característica importante no trabalho de Fagner é que ele nunca esteve ligado a modismos, desenvolvendo sempre seu potencial no sentido da criação de um estilo próprio. Em qualquer de suas canções (compostas ou não por ele) nota-se claramente sua maneira pessoal de dizer ou interpretar as coisas. Tudo o que Fagner canta é uma verdade de seu íntimo, de sua visão do mundo. Daí a imensa identificação entre artista e público, que o tornou um dos maiores cartazes da música popular brasileira moderna.''

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