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 Extraído do Livro ''O Caminho das Pedras - A Saga do Pessoal do Ceará''
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LUIZ GONZAGA & FAGNER
Gravadora: RCA Victor (
BMG Music, Nº 109.0129)
Lançamento: 1984 (LP) - 2002 (CD)

SANGUE DE NORDESTINO (Luiz Guimarães)
SEU JANUÁRIO (O MAIOR TOCADÔ) (Luiz Guimarães)
SÃO JOÃO NA ROÇA (Zé Dantas/Luiz Gonzaga) *
OLHA PRO CÉU (José Fernandes
/Luiz Gonzaga)
BAIÃO (Luiz Gonzaga
/Humberto Teixeira)
ALGODÃO (Zé Dantas/Luiz Gonzaga)
NO CEARÁ NÃO TEM DISSO NÃO (Guio de Moraes)
O CHERO DA CAROLINA (Amorim Roxo
/Zé Gonzaga)
CINTURA FINA (Zé Dantas
/Luiz Gonzaga)
O XOTE DAS MENINAS (Zé Dantas
/Luiz Gonzaga)
ACAUÃ (Zé Dantas) **
CORRIDA DE MOURÃO (CANÇÃO DE VAQUEJADA) (Pedro Bandeira)
SÚPLICA CEARENSE (Gordurinha
/Nelinho)
CIGARRO DE PAIA (Klecius Caldas/Armando Cavalcante)
BOIADEIRO (Klecius Caldas/Armando Cavalcante)
VACA ESTRELA E BOI FUBÁ (Patativa do Assaré)
FEIRA DE GADO
(Zé Dantas/Luiz Gonzaga)

         

         O ano de 1984 foi responsável pela maior emoção já vivida pelo cantor Raimundo Fagner. Ele conseguiu realizar um sonho acalentado desde a infância: gravar um disco ao lado de Luiz Gonzaga, o ''Rei do Baião''. Deixando-se influenciar na adolescência, Fagner manteve o sonho ouvindo os forrós, maxixes e xotes que tocavam no rádio ou nos discos surrupiados do irmão. O fascínio pela obra de Luiz Gonzaga foi demonstrado logo nos dois primeiros discos de Fagner com as canções Último Pau-de-Arara e Riacho do Navio, anteriormente registradas pelo ''Sanfoneiro do Riacho da Brígida''. Em 1976, Fagner conseguiu realizar uma parte do sonho apresentando-se ao lado de Gonzagão num espetáculo da série Seis e Meia, no Teatro João Caetano, no Rio de janeiro. Foi a reiteração de uma sincera amizade iniciada em 1971, quando Fagner ainda um artista praticamente desconhecido foi procurar o ídolo da infância.
         Por diversas vezes, Fagner demonstrou sua admiração pelo velho ''Lua'' (''Pra mim, Luiz Gonzaga representa o básico do que eu sou. No Nordeste ele é fundamental, o todo dia, o arroz com feijão. Ele é uma coisa básica em mim, da qual eu fui me afastando com o tempo, por aí. E pra onde eu estou tentando voltar. Um encontro com Luiz Gonzaga é o sonho da minha vida'').
         No disco ''LUIZ GONZAGA & FAGNER'', primeiramente lançado no selo Harmony da gravadora CBS (1984, No. 141.012) sob licença da RCA que depois o relançou (1984, No. 109.0129) estão dez músicas, na maioria pot-pourris de diversas canções gravadas por Luiz Gonzaga: Sangue de Nordestino, Acauã, Corrida de Mourão, Súplica Cearense, Vaca Estrela e Boi Fubá, Feira de Gado, Seu Januário/São João na Roça/Olha Pro Céu, Baião/Algodão/No Ceará Não Tem Disso Não, O Chero da Carolina/Cintura Fina/O Xote das Meninas, Cigarro de Paia/Boiadeiro. De todas, apenas Vaca Estrela e Boi Fubá, do poeta Patativa do Assaré, foi gravada antes por Fagner.
         O álbum ''LUIZ GONZAGA & FAGNER'' foi fruto da excelente repercussão que teve uma música, na verdade um pot-pourri, trechos dos sucessos Respeita Januário/Riacho do Navio/Forró no Escuro, gravado pelos dois no álbum ''DANADO DE BOM'' (No. 107.0435), de Luiz Gonzaga, lançado pela RCA no início de 1984. A faixa gravada foi o início do caminho para a gravação do elepê lançado em outubro do mesmo ano, com produção de Fagner e Oséas Lopes.

         Em 1988, depois de uma ótima vendagem e a excelente repercussão do primeiro elepê, a gravadora RCA lançou um novo trabalho reunindo os dois intérpretes. No disco ''GONZAGÃO & FAGNER VOL.2-ABC DO SERTÃO'' (RCA/BMG, No. 130.0050) novamente a dobradinha recriou clássicos do repertório do ''Rei do Baião'', como Abc do Sertão, Xamego, Vem Morena, Derramaro o Gai, Pobre Sanfoneiro, Noites Brasileiras, Estrada de Canindé, Juazeiro, Vozes da Seca e Amanhã eu Vou.

         Cantador e sanfoneiro, filho de Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus, nascido no dia 13 de dezembro de 1912, Luiz Gonzaga Nascimento passou a infância na fazenda Caiçara, três léguas do município de Exu, no sertão pernambucano ajudando o pai a consertar sanfonas ou trabalhando na roça. Aos dezessete anos comprou uma harmônica e começou a se aperfeiçoar. Pensou em casar com Nazinha, filha de Raimundo Delgado, homem rico da região. Não consentiram e Luiz acabou levando uma surra de Dona Ana. Humilhado, fugiu para o Crato e de lá para Fortaleza. Em 1930 alistou-se no Exército onde passou dez anos. Deu baixa e foi aportar no Rio de Janeiro onde passou a se apresentar de sanfona nos cabarés da Lapa, músicas de encomenda, Augusto Calheiros e coisas parecidas. O resto é história.
         Luiz Gonzaga tem uma discografia invejável e inexata. Fala-se em quase 200 títulos lançados, entre discos de 78 rotações, elepês e compactos, 1000 músicas, muitas histórias e parceiros desde 1941, quando gravou dois elepês instrumentais em 78 rpm (Véspera de São João, Numa Serenata, Saudades de São João Del Rei, Vira e Mexe) para a gravadora RCA Victor. Depois vieram Dança Mariquinha (primeira gravação de Luiz Gonzaga como cantor) e Mula Preta, o grande sucesso do ano de 1943. Desde então, compositores e alguns perceiros como Humberto Teixeira, Zé Dantas, Hervê Cordovil, David Nasser, Miguel Lima, Lourival Passos, João Silva e Patativa do Assaré colocaram na voz ímpar de Luiz Gonzaga sucessos imortais como Asa-Branca, Riacho do Navio, Dezessete e Setecentos, Vem Morena, Assum Preto, A Triste Partida, Respeita Januário, A Vida do Viajante, nos mais variados ritmos.
         Embora sendo o terceiro artista mundial a receber o ''Cachorinho da RCA'', prêmio entregue anteriormente apenas para Elvis Presley e Nelson Gonçalves, e tenha cantado para presidentes como Eurico Gaspar Dutra e José Sarney e para o Papa João Paulo II, o verdadeiro reconhecimento do valor de sua obra veio ainda em 1984. Luiz Gonzaga foi o grande homenageado na noite da entrega do Prêmio Shell para os melhores da Música Popular Brasileira. Segundo a crítica especializada, um prêmio justo e merecido para quem, em muitos anos de carreira artística somente recebeu dois Discos de Ouro e em 1981, o mesmo ano em que a classe artística se reuniu para homenagear Luiz Gonzaga em um show promovido pelo Cebrade. Em 1985 Luiz Gonzaga foi premiado com o ''Nipper de Ouro'' pelo conjunto de sua obra.
         Um grande espetáculo na casa de shows Spazio, em Campina Grande, em outubro de 1988, marcou os cinqüenta anos de carreira artística do cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga. Muitos artistas, na maioria nordestinos, participaram do evento, entre os quais Fagner, Elba Ramalho, Nando Cordel, Alcymar Monteiro, Capilé, Jorge de Altinho, Dominguinhos, Oswaldinho do Acordeon, Pedro Sertanejo, Zé Américo, Manassés, Borel, Valdomiro Moraes, Waldonys e o filho Gonzaguinha.
         Andando de muletas e mesmo debilitado em virtude de uma operação para a retirada de água na pleura, o ''Rei do Baião'' assistiu ao espetáculo e cantou, sentado numa poltrona alguns dos seus maiores sucessos.

         ''O primeiro show que vi em minha vida foi o Gonzagão, na Praça do Ferreira, em Fortaleza. O 'Lua' é do Exu, mas ama o Ceará, e a estrada que liga aquela cidade e o Estado foi feita pelo Ceará. Ele tem coração cearense. Aquela multidão que eu via pela primeira vez era a realidade da maior voz do Nordeste, tentando fazer chegar ao Sul o nosso canto, a nossa realidade. Ele sempre batalhou muito para que a nossa voz fosse ouvida. É o Mestre Maior. Pelo trahalho que fizemos juntos, apenas por aqueles momentos maravilhosos, já me sinto gratificado pela profissão que escolhi. Fizemos uma amizade muito grande e bonita. Eu, ele e Gonzaguinha, tanto que virei padrinho de Mariana e fui adotado por dona Helena e Lelete. Essa família é a minha família.''
         
''Quando gravamos o nosso primeiro elepê juntos, a resposta foi tão expressiva, nossa penetração no Nordeste foi tão bem recebida que gravamos outro a seguir. Neste, procurei destacar seu lado de autor, desde Chamego até Pobre Sanfoneiro. De Humberto Teixeira e Zé Dantas até João Silva e parceiros tais como Miguel Lima e Beduíno. A emoção desses trabalhos é enorme e eu só posso agradecer ao velho 'Lua' o carinho e a disponibilidade de enfrentar os estúdios enquanto trabalhamos juntos.''
         ''Luiz Gonzaga é a própria raiz do Nordeste. A voz maior dos nordestinos, a voz do Brasil é ele. Isso nos deixa envolvidos numa saudade enorme; eu, principalmente, que tive o prazer de gravar dois discos ao seu lado, de estar com ele em shows e conviver com essa força humana incrível que é Gonzagão. Ele foi uma pessoa descontraída, que tinha consciência de sua importância. Das músicas dele eu tinha preferência por Triste Partida, que ele mais gostava, Estrada de Canindé e Riacho do Navio. A emoção maior foi gravar Súplica Cearense ao seu lado. No estúdio foi algo delirante. Gonzaga é tudo.''

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* Luiz Gonzaga gravou São João na Roça em 1952 e Olha Pro Céu em 1951. Originalmente gravada com o grupo cearense Quatro Ases e 1 Coringa em 1946 (Odeon, No. 12724, 78 rpm), Baião somente recebeu a interpretação de Luiz Gonzaga três anos depois na RCA Victor. No Ceará Não Tem Disso Não, Boiadeiro e Cintura Fina foram gravadas por Luiz Gonzaga em 1950. Luiz Gonzaga gravou Acauã** em 1952, para RCA Victor (No. 80.0961-A) e O Xote das Meninas, em 1953.
         Gordurinha gravou Súplica Cearense em 1960, para a gravadora Continental (No. 17.778-A), mas foi na voz de Ary Lobo que este choro-canção estourou em todo o País (Esquema, No. 1239121).

** A acauã, uma palavra de origem tupi, é uma ave da família dos falconídeos. Ave de rapina, principalmente das caatingas do Nordeste, em geral alimenta-se de presas vivas como insetos, répteis e outras aves menores. Para os nordestinos o canto da acauã é prenuncio de desgraças e aflições; miséria e fome, conseqüências de longos períodos de seca.

PERFIL DE LUIZ GONZAGA

Projetos Especiais           

_______ FICHA TÉCNICA _______

Direção Musical:

FAGNER
Produção:
RAIMUNDO FAGNER, OSÉAS LOPES
Direção Artística
MIGUEL PLOPSCHI
Foto:
FREDERICO MENDES
Capa:
ANDRÉ TEIXEIRA, VALÉRIO DO CARMO