.




Copyright © 2000/2002 - Pesquisa e Acervo de Fotos: Evangê Costa - Todos os Direitos Reservados.
website oficial
website oficial

A Estrela Sobe

                                                        
por Zeca Kiechaloski

Aos 15 minutos do primeiro dia de janeiro deste ano eu procurava, pelas ruas de Porto Alegre, um telefone público para desejar feliz ano novo para um grande amor, quando ao passar em frente a um restaurante, ouvi : " Ah! Como tenho me enganado, como tenho me matado, por Ter demais confiado nas evidências do amor ", cantado por Elis. Era ela ! Novamente aquela voz me acompanhando incidentalmente como que coadjuvando minhas atitudes. Junto com a ansiedade de ouvir a voz da pessoa amada veio a profunda tristeza e um pensamento inevitável: FAZ 20 ANOS!.

Ouvi pela primeira vez aquela voz com 14 anos. O grito de arrastão me colocou em frente de um aparelho de televisão para ouvir uma mulher cantando como eu nunca mais ouvi outra cantar. Não tem jeito. Ouço qualquer cantora e faço sempre a comparação: ela era melhor. Até hoje busco encontrar uma resposta para o grande mistério que é a fascinação que ela exerceu sobre mim, e, principalmente sobre o destino das pessoas.

Elis tinha tudo para se tornar mais uma professora da classe média gaúcha: pobre, estrábica, filha de uma dona de casa e de um operário, morando numa remota cidade do último Estado do sul de um abandonado País do Terceiro Mundo. Com que direito ela poderia imaginar ser outra coisa? O direito de possuir a voz mais bela que este mesmo País já ouviu. Elis transformou a sua voz no seu mote. Era com ela que iria conquistar o mundo, e fez isto brilhantemente.

Cantou na sua rua, no seu bairro, na sua cidade e foi alardeando aquele grito de guerra por todos os lugares onde existissem pessoas dispostas a ouvir um Dom divino. Abrindo espaços furiosamente, Elis foi se impondo e acabou conquistando praticamente o mundo todo. Brigou com todo mundo que amou. Amou todo mundo com sua voz.

A forma que encontrava de dizer que amava as pessoas, como talvez nenhuma outra pessoa tenha amado, era cantando. E isto ninguém fazia melhor. Talvez seja este o motivo que tenha feito Ella Fitzgerald afirmar que Elis era uma das cinco maiores cantoras do mundo. Talvez seja este o motivo que tenha feito Michel Legrand chorar ao ouvir uma gravação de Elis de uma música sua. Talvez seja este o motivo que tenha feito a platéia do Festival de Montreaux aplaudi-la por sete ininterruptos minutos. Talvez seja este o motivo que tenha feito assistências do mundo inteiro ficarem literalmente embasbacadas com aquela mulher que parecia um duende alucinado quando cantava.

E não satisfeita em apenas emocionar as pessoas, Elis lutou. Com a força de uma Irínia descobriu novos compositores, enfrentou a ditadura, acolheu artistas em sua casa, tirou amigos da prisão e, mais do que tudo, falou. Talvez tenha sido a artista que mais falou no Brasil. Sobre tudo, e com uma segurança que chegava às raias da loucura. Não importava se ia arrepender-se dez minutos depois. O importante era dar um depoimento sobre o seu tempo. E, em relação a isto, ninguém pode dizer nada em contrário. Um dia, talvez cansada de tanto lutar, resolveu se calar.

É muito triste imaginar que nunca mais existirá a sua voz sempre nova. É muito doloroso Ter a certeza de que ela nos condenou à previsibilidade em que se tornou a música brasileira. É muito chato saber que, ao procurar um disco nas lojas, não teremos mais o prazer de encontrar aquelas verdadeiras caixas de Pandora que eram os seus discos. Hoje eu não consigo deixar de ficar melancólico. Ando pela minha querida cidade e constato que ela não parou por causa de sua morte. As pessoas continuam vivendo. Procuro em seus olhos algum sinal de que elas estão solidárias, de que também estão tristes, mas não encontro. Vinte anos é muito tempo. Quanto a mim, sinto a mesma alegria adolescente ao ouvir a sua voz, a mesma surpresa que tive quando fui acordado por aquele som: " Eh! Tem jangada no mar / Eh! Hoje tem arrastão ".

No dia primeiro de janeiro deste ano, quando ouvi a voz dela saindo daquela caixa de som, foi como se fosse pela primeira vez, e pensei: " Que voz linda ! ". E isto eu vou pensar até o fim. Até o dia em que eu também resolver me calar. Assim como ela.

 ZECA KIECHALOSKI

e-mail: zecak@portoweb.com.br

         veja Fotos

Voltar Perfil Elis Regina