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Fagner
entre o velho e o novo
Fortaleza,
Ceará, 28 de Nov de 2002
Quase dois anos depois
de gravar um disco ao vivo, no Anfiteatro do Centro Dragão do Mar em Fortaleza,
o cantor e compositor Raimundo Fagner aventura-se novamente nos palcos e registra
''Me Leve'', gravado ao vivo, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro...
Só
que desta vez, Fagner não gravou um ''Volume 3'' ao vivo como podem pensar
os mais apressados. Fagner pegou algumas canções de pouco sucesso ou mesmo
faixas obscuras de seus discos anteriores, dando uma nova concepção às composições.
É o caso da faixa título. Contando com a ajuda de alguns amigos nos arranjos,
como o músico Adelson Vianna, Fagner praticamente recriou suas canções. Fora
isso, ainda incluiu algumas músicas inéditas e rememorou a recente parceria
com o maranhense Zeca Baleiro - na sintomática Você Só Pensa em Grana.
Cheio de planos para o próximo ano, que inclui aí um disco inteiro ao lado
de Baleiro. ''ME LEVE'' sairá também na versão de DVD. Fagner
falou ao Caderno 3. Veja a seguir os principais trechos da entrevista
Diário do Nordeste- Comecemos por uma pergunta óbvia: por que um outro
disco ao vivo em um espaço de tempo tão curto?
Fagner - Nós não havíamos gravado o DVD daquele show histórico, realizado
em Fortaleza. Foi um vacilo da Sony. Isso gerou uma frustração danada. Como
este material é de propriedade dela, principalmente as músicas antigas, e
eu estou acabando o meu contrato com eles, resolvi realizar este novo trabalho.
A minha idéia era fazer só o CD, pois eu não sabia se ia ficar ou sair da
gravadora, apesar do clima estar muito bom.
- Você chegou a afirmar que se enfastiou um pouco das gravadoras.
Com estes últimos trabalhos, os ressentimentos acabaram?
Fagner - Quando se está trabalhando, as coisas ficam bem mais tranqüilas.
O fastio das gravadoras é uma coisa comum. Só que tem momentos em que você
se preocupa mais e, em outros, você nem pensa em nada. O momento agora é de
juntar as mãos. Eles estão trabalhando direito e eu estou correndo atrás,
embora esteja quase saindo de férias.
- Quando é que sai este trabalho com o Zeca Baleiro?
Fagner - Acredito que até o meio do ano que vem, ele esteja pronto. Em janeiro
vamos compor o restante das músicas. Depois que o disco estiver pronto vamos
sair para fazer um DVD na estrada, cobrindo as fases do shows pelo País. Vou
aproveitar para comemorar os meus 30 anos de carreira. Estarei também lançando
uma caixa com todos os meus CDs pela Sony. Deve também estar saindo ''MANERA
FRU FRU'', pela Universal com Canteiros e as faixas
bônus que eu não havia lançado. Tem também um projeto que eu quero fazer com
o Gonzaguinha e o Gonzagão.
- Falando neste disco novo, como foi organizar este repertório, que
mescla coisas antigas e algumas inéditas?
Fagner - As antigas eu queria que tivessem a cara de novas, ou seja, músicas
que não tiveram grande execução como é o caso de Me Leve
e Fracasso, canções que as pessoas estão me ouvindo cantar,
mas acham que são músicas inéditas.
- E as novas?
Fagner - Estas, junto com as antigas, deram ao disco um caráter de ineditismo.
É o caso, por exemplo, da música do Zeca Baleiro, que é muito mais conhecida
pelo público dele. Com o DVD misturou tudo, pois ele traz as coisas antigas
com sucessos presentes. Se houvesse feito o DVD só daquele show teria aparecido
apenas as coisas mais antigas.
- O que lhe levou a gravar ''Ave Maria'', de Gounod?
Fagner - Foi saudade da Piedade (bairro de Fortaleza), quando eu cantava na
Igreja. Quando foi inaugurada a Praça dos Romeiros, o Tasso Jereissati me
levou, pois ele iria inaugurá-la junto com Dom Helder Câmara e eu resolvi
gravar a Oração de São Francisco em compacto. Como tinha
o outro lado, coloquei a Ave Maria. Eu já havia feito isso
em um outro CD, que não me lembro no momento. Agora me deu vontade de gravar
ao vivo. Isso foi muito bom para mostrar o meu lado cristão, que sempre foi
meio camuflado.
- Pulando para a política: como você acompanhou a disputa política
para o governo do Estado entre o Lúcio Alcântara e o candidato do PT José
Airton, que ninguém achava que pudesse chegar ao segundo turno?
Fagner - Acho que nem o PT achava, pois se eles tivessem esta convicção teriam
colocado como candidatos o Inácio (Arruda) ou o Arthur (Bruno). Não sei se
eles fugiram da raia com medo. Para mim foi uma coisa surpreendente, para
a democracia foi ótimo. Acho que o projeto ''Das Mudanças'' teve este desgaste.
Eles mudaram a política, mas este modelo também se desgasta. Eles tiveram
muitos acertos, mas também erros graves, principalmente no sentido de comunicação.
Um exemplo foi esta industrialização exacerbada em detrimento de um projeto
de agricultura, fundamental nestas regiões para que, com isso, o povo não
fuja para São Paulo e morra de vergonha.
- Existe uma expectativa muito grande em torno do governo Lula. O
que você espera dele?
Fagner - Acho que o discurso humano, este é fundamental. Nós estamos cansados
das elites ganharem as eleições e a vontade popular sempre ficar em segundo
plano. Foi uma dose violenta de autoestima do povo. É como ganhar uma Copa
do Mundo.
Roberto
Vieira - Da Editoria do Caderno 3
© 2002 Editora Verdes Mares